Economia Criativa

Conforme aponta o Relatório das Nações Unidas (2010), não existe um consenso conceitual sobre economia criativa, pois se trata de uma terminologia subjetiva e que vem sendo moldada ao longo das últimas décadas. Assim, cada país acaba por construir a própria noção, dependendo da maneira como busca desenvolver políticas de fomento às áreas imbricadas no desenvolvimento dessa economia. A definição, apresentada no relatório, foi constituída pela UNCTAD (Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento), e considera o seguinte:

A economia criativa é um conceito em evolução baseado em ativos criativos que potencialmente geram crescimento e desenvolvimento econômico.

1. Ela pode estimular a geração de renda, criação de empregos e a exportação de ganhos, ao mesmo tempo em que promove a inclusão social, diversidade cultural e desenvolvimento humano.

2. Ela abraça aspectos econômicos, culturais e sociais que interagem com objetivos de tecnologia, propriedade intelectual e turismo.

3. É um conjunto de atividades econômicas baseadas em conhecimento, com uma dimensão de desenvolvimento e interligações cruzadas em macro e micro níveis para a economia em geral.

4. É uma opção de desenvolvimento viável que demanda respostas de políticas inovadoras e multidisciplinares, além de ação interministerial.

5. No centro da economia criativa, localizam-se as indústrias criativas (IBIDEM, 2010, p. 39 – 40).

Howkins (2013) foi, de fato, um dos primeiros estudiosos do assunto a buscar maneiras de difundir o conceito de economia criativa. Nesse sentido, o autor pondera que um dos fatores mais importantes para a emergência da economia criativa é a economia do conhecimento. Na sua visão, o conhecimento é fundamental para a geração de riqueza em torno da criatividade. Porém, isso só se estabelece devido ao produto resultante de novos arranjos em torno de ideias. O produto criativo, portanto, surge de uma combinação múltipla composta pelos elementos: conhecimento, processos produtivos, ideia, criatividade. Para Howkins, essa combinação não é exclusividade das áreas tradicionalmente reconhecidas como criativas – caso da arte, por exemplo. Muito do que é feito na ciência também está envolvido nesses aspectos, porém, muitas vezes, o resultado não possui o mesmo apelo de um produto artístico. Sendo assim, sua maneira de construir uma noção de economia criativa leva em consideração os aspectos de propriedade intelectual e geração de patentes, fatores talvez menos apelativos que a própria conceituação do termo. Seguindo esse viés, Howkins irá inter-relacionar quatro grandes setores à sua noção de economia criativa. São eles: direitos autorais, patentes, registro de marcas e registro de desenho industrial. Na visão do autor, cada um desses setores está, em alguma medida, contido na geração de produtos criativos e em transações implicadas na produção dos mesmos. A economia criativa "acontece" devido às relações entre esses fatores:

A economia criativa consiste nas transações contidas nesses produtos criativos. Cada transação pode ter dois valores complementares: o valor da propriedade intelectual intangível e o valor de suporte ou plataforma física (se realmente existir alguma). Em alguns setores como software o valor da propriedade intelectual é mais elevado. Em outros, como artes, o custo unitário do objeto físico é maior (Hawkins, 2013, pg.:17).

Miguez (2008), diz que a economia criativa relaciona bens e serviços desenvolvidos a partir de aportes intangíveis – simbólicos, por exemplo – incorporando a propriedade intelectual desenvolvida por agentes de setores diversos, que vão desde o artesanato até complexas cadeias produtivas das indústrias culturais. O autor comenta que a expressão economia criativa é posterior a indústria criativa, tendo aparecido pela primeira vez em agosto de 2001, em uma matéria especial da revista Busnisses Week. Já o termo indústria criativa surgiu nos anos 1990, figurando, especialmente, no manifesto pré-eleitoral do novo partido trabalhista inglês (New Labour). Por ter apresentado um desenvolvimento importante, principalmente quando são relacionados aspectos que formam o PIB (produto interno bruto) de algumas nações, a economia criativa vem chamando mais a atenção da comunidade internacional, visto pontuar novos modos mais inclusivos de desenvolvimento não só econômico, mas também intelectual e social (IBIDEM, 2008, p. 97 – 100).

Ao longo do ano de 2015, o British Council promoveu uma série de debates em capitais brasileiras, buscando abordar o tema economia criativa no Brasil e no Reino Unido. Os eventos, intitulados Diálogos de Economia Criativa, ocorreram em capitais do Brasil, sendo que Porto Alegre figurou entre elas. O princípio dos Diálogos era discutir a centralidade da economia criativa na geração de trabalho, renda e inovações no Brasil e no Reino Unido, além de ser um momento para ambos os territórios estreitarem laços colaborativos a partir do tema.

Para melhor alinhar as interlocuções em torno do tema, o British Council apresentou sua noção mais contemporânea de economia criativa:

(...) é o modelo que inclui modos de gestão ou negócios que se originam em atividades, produtos ou serviços desenvolvidos a partir do conhecimento, criatividade ou capital intelectual de indivíduos. Em 2013, o PIB da economia criativa no Brasil foi de R$126 bilhões. No Reino Unido, pioneiro no setor, os empreendimentos do gênero geram 76,9 bilhões de libras por ano para a economia local.

O fato é que o alinhamento entre indústrias culturais, indústrias criativas e economia criativa vai além do desenvolvimento econômico. Existem as dimensões sociais, culturais e também políticas previstas na construção dos conceitos que envolvem a produção de bens considerados criativos ou culturais. Essas dimensões têm sido fundamentais para o desenvolvimento de alternativas para vários países, principalmente nas últimas décadas do século XX, quando o impacto da globalização contribuiu para a emergência de políticas, recursos e debates entusiasmados em torno da cultura e dos benefícios econômicos associados a ela (YÚDICE, 2014).

Esses elementos considerados por Yúdice (2014) são também pontuados por Lala Deheinzelin (2013) para falar sobre a implicação dos ativos intangíveis na geração de desenvolvimento exponencial para várias economias no mundo. Na visão da autora, o crescimento exponencial subentende a existência de organizações complexas, que funcionam em redes dinâmicas e são resultantes da emergência desse novo arranjo econômico, social, ambiental e cultural. Deheinzelin versa sobre quatro pilares de desenvolvimento do crescimento exponencial:

O primeiro é o dos recursos intangíveis (cultura, conhecimento, criatividade, atributos de marca), que não apenas não se esgotam como se renovam e multiplicam com o uso. Só esse fato já deveria fazer com que a economia criativa fosse prioridade estratégica – num momento em que o grande impasse é como seguir gerando renda e qualidade de vida se o planeta é um só, finito. Os atributos e características locais são um patrimônio precioso, a base para o branding do território, e, uma vez reconhecidos, irão gerar valor para todo tipo de produto e processo.

Mas, se os átomos da Terra são finitos, os bits das novas tecnologias são o segundo pilar infinito. Com eles podemos criar muitos mundos virtuais e infinitas formas de potencializar, conectar, recriar e interagir.

 

E isso gera o terceiro pilar: as infinitas formas em que a sociedade em rede se organiza, e produz.

 

O quarto pilar é a chave para que de fato seja possível atuar com os pilares anteriores: uma visão multidimensional de riqueza, que simplificamos chamando Economia 4D, pois considera recursos e resultados não apenas na dimensão Financeira, mas também na Ambiental, Social e Cultural (IBIDEM, 2013, p. 3 - 5).

A perspectiva do crescimento exponencial está embasada em uma lógica diversa àquela mais comum no sistema capital. Ou seja, da competitividade. A partir dessa perspectiva, quanto mais organizações se configuram e articulam, maior será o giro de mercadorias e a troca de conhecimentos que poderão fazer surgir outras organizações. Nesse contexto, a criatividade emerge como componente de desenvolvimento imbricado a conhecimento, cultura e inovação. O foco na criatividade, nesse novo arranjo econômico, se baseia no fato de ser um recurso tanto intangível, como inesgotável (DEHEINZELIN, 2013; GRARNHAM, 2011; TREMBLAY, 2011; FLORIDA, 2011).

Todos esses elementos apontam para a importância de conhecer, e lançar luz, sobre os empreendimentos de economia criativa local. Ao conhecermos esses empreendimentos, também nos conectamos aos empreendedores, suas motivações e dores. Isso também contribui para reconhecermos algumas oportunidades e vocações locais, contribuindo para estimular a geração de novas redes em torno de projetos e empreendimentos. Ganham as pessoas, que podem construir, de modo coletivo, um macro ambiente propício ao crescimento exponencial. Ganha o território onde esse macro ambiente for estabelecido, pois certamente irá atrair novos talentos e investimentos.

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